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Como jovens editores dos Estados Unidos estão mudando as revistas culinárias

  • 4 de abr. de 2018
  • 4 min de leitura

Um pessoal jovem dos Estados Unidos, decepcionado com as revistas tradicionais de gastronomia, resolveu criar suas próprias publicações. Eles focam em edições anuais impressas, falando sobre assuntos menos abrangentes, para que possam ter uma maior profundidade e atingir um público específico.


Shayne Chammavanijakul, uma estudante de família tailandesa da Universidade de Illinois, não gostava do modo como algumas revistas mostravam a culinária asiática – como algo de outro mundo, estilizadas com clichês visuais e muito simplificadas. Então, resolveu fazer a sua própria revista.


Durante as férias de verão da faculdade, ela trabalhou em um restaurante para juntar dinheiro e pagar alguns colaboradores do projeto. Shayne conseguiu apoio financeiro e editorial de amigos e família para imprimir 10 mil cópias da primeira edição de Dill.


Capa da segunda edição de Dill, sobre condimentos da cozinha asiática. Lançado em março deste ano. Foto: Reprodução Dill Magazine.

Shayne considera o pequeno público da Dill uma vantagem. “Outras publicações são limitadas, pois precisam agradar um enorme espectro de pessoas”, explica. “Com a gente, tudo é tradicional e sem restrições.”


Em tempos em que revistas culinárias tradicionais estão diminuindo e cortando funcionários, Dill é parte de uma inesperada onda de pequenas e sofisticadas revistas impressas, produzidas com um baixo orçamento por jovens editores com fortes pontos de vista e uma paixão por seus temas – das sutilezas das comidas caseiras tailandesas até a intersecção de comida e cultura gay.


Kimberly Chou e Amanda Dell dirigem a Food Book Fair and Foodieodicals, uma feira anual para revistas independentes; Chou fala que o número de títulos participantes foi de cerca de uma dúzia, em 2012, para 30 no último ano.


Apesar de alguns nomes meio desagradáveis – como Toothache (dor de dente) ou Mold (mofo) – muitas dessas publicações são lindas e convidativas, com páginas saturadas de tinta, cheias de arte original e histórias complexas e com nuances que você vai querer passar um tempo digerindo. Seus preços são apropriadamente altos, com muitos em torno dos US$ 20, e alguns focam inteiramente no impresso. As revistas são vendidas para qualquer lugar do mundo, disponíveis em seus respectivos sites.


As equipes tendem a ser pequenas (frequentemente apenas uma ou duas pessoas), assim como as circulações (de 150 a 15 mil). Mas o que esses títulos carecem em tamanho ou legado, eles compensam em originalidade e ambição, muitas vezes focando em histórias que foram ignoradas ou mal representadas em revistas tradicionais e publicando-as de acordo.


“Muitas produções independentes começam fazendo algo que os criadores gostariam de ler, que contam histórias que querem que sejam contadas, que representem suas próprias experiências ou as de seus amigos”, relata Chou. “Eles não estão necessariamente roubando o público de Bon Appétit ou Saveur (revistas culinárias renomadas nos EUA), sequer estão tentando fazer isso.”


Mac Malikowski (30) traz o mesmo tipo de especificidade descompromissada para Mouthfeel, sua revista sobre comida e cultura gay, que ele produz em Nova York.


Mouthfeel é uma manifestação da exata união cultural em que vivo”, menciona Malikowski, que vende cerca de mil cópias de cada edição anual online e em dez revendedores ao redor do mundo.


Chef Gerardo Gonzalez na capa da segunda edição da revista Mouthfeel. Foto: Reprodução Mouthfeel Magazine.

Quando ele começou, em 2015, Malikowski diz que procurava contar histórias culinárias contraculturais, o tipo que ainda não era descrito nas revistas populares. Mouthfeel cobriu as festas de jantar nuas dadas pela drag queen de São Francisco, Juanita Moore, e organizadas pelo chefe nova-iorquino Gerardo Gonzalez do restaurante Lalito.


Da mesma maneira que muitos de seu grupo, Mac expressou descontentamento no mundo das revistas, e frustração com os limites impostos em pequenas produções que querem expandir ou experimentar novos modelos de negócio. Tal qual a maioria dos editores, ele tem um trabalho adicional – neste caso, como um escritor e assistente de produção para um escultor e cenógrafo – para financiar a Mouthfeel e se manter.


A maior parte dessas revistas é feita com amor, produzidas nos tempos livres à noite e nos fins de semana.


Depois de um financiamento colaborativo como investimento inicial ou usando economias pessoais, pequenos times com baixo orçamento poderão talvez pagar pelos custos da impressão e os colaboradores freelance, normalmente com uma mistura de vendas, parcerias com marcas e eventos.


Isso pode gerar o suficiente para produzir a próxima edição, mas muitos editores dizem que não é o suficiente para pagar um salário completo a si mesmos, muito menos contratar uma equipe em tempo integral. Alguns contratam profissionais freelance, enquanto outros contam com a ajuda de amigos e família para compartilhar dicas de design ou revisar páginas.


Nona edição de Cherry Bombe. Foto: Reprodução Cherry Bombe Magazine.

Claudia Wu (41), quem trabalhou em publicações independentes por anos em Nova York e ama fazer revistas, diz que ela ainda acha o lado dos negócios desafiador. “As coisas parecem mais promissoras do lado de fora do que de dentro”, afirma.


Em parceria com a diretora editorial Kerry Diamond, Wu fundou a Cherry Bombe, uma publicação lustrosa com foco em mulheres e culinária. “Se você ama o processo de construir uma revista, pode ser a maior liberação de criatividade que você pode ter”, Wu diz. “Mas, em termos de longevidade, depende de quanta dor você consegue aguentar.”


Ela continua: “Você não pode ser somente uma revista. Esse modelo de negócio não vai mais funcionar para ninguém. Mas a revista é a definição de sua marca”.

Segunda edição da revista Toothache. Foto: Reprodução Toothache Magazine.

Nick Muncy é o chef confeiteiro que produz a revista Toothache, a qual usa uma linguagem semelhante à da cozinha profissional, feita especificamente para pessoas que já possuem um conhecimento no mundo culinário. Ele fala: “Distribuição é um saco, impressão é cara e ninguém quer fazer propaganda”.

É comum novas publicações desistirem depois de alguns anos, ou menos.

Para alguns editores e designers, a revista é parte de uma maior estratégia de marca, ou o que Chou chamaria de “um cartão de visita muito caro”.

 
 
 

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